Brasileiro concentra 40% das buscas globais por fragrâncias árabes, segmento que cresceu 340% no primeiro semestre de 2026 e consolidou o país como porta de entrada para marcas do Oriente Médio e laboratório de expansão na América Latina.
Em apenas alguns anos, o oud saiu do vocabulário de nicho para o portfólio de fragrâncias das grandes marcas de beleza. Nesse cenário, o açafrão virou ingrediente aspiracional. E o almíscar, há décadas presente em formulações convencionais, ganhou uma nova camada de desejo quando passou a ser contado sob a perspectiva da perfumaria oriental. O Brasil, com sua voracidade por tendências olfativas e um consumidor que nunca foi tão antenado, transformou-se no epicentro global dessa onda.
Os números não deixam margem para interpretação: um estudo da dsm-firmenich com o Google Trends revelou que o público brasileiro concentra sozinho 40% das buscas mundiais sobre perfumaria árabe. Somado a um mercado global de perfumes árabes, avaliado em US$ 54 bilhões, segundo a Data Bridge Market Research, o Brasil passa a ser o destino prioritário para qualquer marca do Oriente Médio com ambições internacionais.
O Brasil como laboratório da América Latina
Dentro do ecossistema global da beleza, o Brasil carrega uma posição singular: o que funciona aqui, geralmente também funciona na América Latina. Essa lógica, conhecida no setor como “laboratório regional”, se repete no skincare, no haircare e, agora, com força total na perfumaria. A combinação de um mercado consumidor maduro, alta penetração digital, cultura de recomendação nas redes sociais e uma classe média com apetite crescente por produtos premium cria as condições ideais para testar aceitação, ajustar posicionamento e, a partir daí, escalar para os demais países da região. Quem valida o produto no Brasil tem, na prática, um passaporte acelerado para México, Argentina, Colômbia e outros mercados latino-americanos.
É com esse olhar estratégico que a Riiffs, marca originária de Dubai e reconhecida por combinar fragrâncias intensas com estética sofisticada e preços acessíveis, acaba de iniciar suas operações no Brasil. A movimentação não é aleatória: Dubai consolidou-se recentemente como um dos mais importantes centros globais de luxo e perfumaria, e marcas nascidas nesse ecossistema chegam ao Brasil com uma proposta clara: a autenticidade de origem aliada a uma acessibilidade que outras marcas de nicho raramente conseguem entregar.
Indústria nacional
Se há um sinal incontestável de que uma tendência atingiu maturidade de mercado é quando as grandes marcas nacionais começam a agir. Isso é o que está acontecendo agora. A Natura, líder em beleza na América Latina, acaba de lançar o Essencial Safran, uma fragrância desenvolvida em Dubai, em cocriação entre a perfumista exclusiva da marca, Verônica Kato, e especialistas em perfumaria árabe como Pierre Guéros e Gael Montero. O produto eleva a Coleção de Ingredientes Árabes da linha Essencial a um novo patamar: o açafrão, conhecido como o “ouro vermelho” da perfumaria oriental, é combiado com o ishpink amazônico, um ingrediente exclusivo da biodiversidade brasileira. O resultado são duas fragrâncias que alcançaram mais de 90% de aprovação em avaliações olfativas realizadas com consumidores da classe BC entre 25 e 45 anos.
O Grupo Boticário também entrou em campo com uma abordagem igualmente consistente. O lançamento de Nativa SPA Rosas Secretas vai além da inspiração olfativa: a submarca criou, em parceria com a casa de fragrâncias Symrise, o “Acorde Desejo à Flor da Pele”, uma tecnologia exclusiva desenvolvida a partir de testes multissensoriais que avaliam simultaneamente visão, tato e olfato. Com seis itens no portfólio, a novidade projeta crescimento de 24% nas vendas em comparação com o último lançamento da submarca.
Ressignificando a perfumaria árabe
Aqui está, talvez, o dado mais revelador de todo esse movimento: o Brasil não apenas consumiu a tendência árabe, ele a adaptou, a democratizou e criou uma versão própria. Em agosto de 2024, quando o mercado nacional ainda engatinhava no tema, a Miss Rôse lançou a Linha Árabe Miss Care, com body splash de 200 ml enriquecido com vitamina E, incorporando ingredientes como oud, açafrão e âmbar em um formato popular e acessível. No mesmo terreno, a Amakha Paris acaba de ampliar sua coleção árabe com o lançamento do Zaya, um body splash inspirado no Lattafa, um dos perfumes femininos árabes mais vendidos e viralizados no mundo recentemente, com enorme tração no TikTok e Instagram. A fragrância traz notas de saída de orquídea, heliotrópio e tangerina, coração gourmand de frutas tropicais e fundo de baunilha, almíscar e sândalo.
A Amakha já conta com outras apostas no território oriental, como Hasan Rose e Al Sabah, ambos florais ambarados que ajudaram a preparar o consumidor para o universo de fragrâncias que o Zaya agora expande. Para Denise Lemos, CEO da marca, a equação é simples: “O consumidor está mais informado, conectado às tendências globais e busca fragrâncias que traduzam personalidade, mas com preço acessível. A perfumaria árabe entra exatamente nesse contexto, entregando intensidade, sofisticação e assinatura olfativa marcante”.
A criação do body splash árabe é, na verdade, um exercício clássico de tropicalização de tendência, algo que o Brasil faz com maestria em beleza há décadas. A perfumaria árabe chegou ao país com seus códigos originais de intensidade, longevidade e presença marcante. O consumidor brasileiro adorou a proposta, mas pediu praticidade, acessibilidade e um toque local. O resultado é um produto que não existe em Dubai ou qualquer outro mercado do mundo. É genuinamente brasileiro, é exatamente por isso que funciona tão bem aqui e tende a funcionar de forma igualmente expressiva no restante da América Latina.
O varejo no centro da mudança
Para o varejo de beleza, o movimento que está em curso é uma reconfiguração de categoria, e os números da Circana confirmam. O segmento de fragrâncias árabes movimentou mais de R$ 20 milhões no Brasil em 2024, com crescimento de 380% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, o avanço foi de 340%, mostrando que a curva de crescimento se manteve em forte aceleração. E há um dado ainda mais relevante para o varejo: mais de 90% das vendas de perfumes árabes no Brasil ainda acontecem em lojas físicas, com ticket médio de R$ 345 e opções que chegam a R$ 2 mil. Ou seja, é uma categoria de alto valor que depende fundamentalmente da vitrine, da experimentação presencial e do papel consultivo do vendedor para converter.
Ana Seccato, diretora comercial da Circana, resume o fenômeno com precisão: a perfumaria árabe entrega exatamente o que o consumidor brasileiro mais valoriza: fragrâncias marcantes com maior durabilidade.
O Brasil, hoje, é o mercado que está definindo como essa tendência vai se desenvolver na América Latina. Marcas estrangeiras chegam com olhos atentos aos dados de performance locais antes de decidir sua expansão regional. Marcas nacionais investem em cocriação e tecnologia sensorial para entregar uma proposta que vai muito além da inspiração. E o consumidor popular encontra, no body splash árabe, a porta de entrada para um universo que antes parecia inacessível.